Top brasileira vence magreza e faz sucesso nos EUA como ‘plus size’

Rede Social – Folha de SP – Ela mede 1,77 m e não sabe o peso atual.

“Parei de me pesar desde que eu me curei”, diz a modelo Nathalia Novaes, 27. Após oito anos de carreira, ela se libertou nos últimos dois do hábito “doentio” de subir na balança todos os dias. Livrou-se, por tabela, da pressão por um corpo esquálido com o qual fez sucesso no Brasil e no exterior no início da carreira.

A top brasileira calcula estar pesando em torno de 73 kg, uma “heresia” que a fez enveredar por um novo nicho de mercado: o das modelos “plus size”.

São aquelas que sobem na passarela e posam para campanhas envergando um manequim acima do número 42, contra o 36 padrão das tops “normais”, ressalta ela, frisando o entre aspas.

Descoberta aos 19 anos, quando era aluna de jornalismo da USP, Nathalia é uma das estrelas do documentário “Straight/Curve: – Redefining Body Image” (“Magras x Curvilíneas: Redefinindo a Imagem Corporal”, em tradução livre), lançando em julho nos Estados Unidos.

A brasileira vive em Nova York, onde desfilou para a última edição da badalada Semana de Moda local. Dividiu a passarela com outras modelos “plus size”.

No set de filmagens, compartilhou experiências com outros nomes que começam a fazer fama para além dos padrões da indústria: Iskra Lawrence, Philomena Kwao, Robyn Lawley, Sabrina Karlsson e Jennie Runk.

Entre as tops ícones dessa categoria “beleza além do tamanho” está a americana Ashley Graham, 29, que tem 5,4 milhões de seguidores no Instagram e exibe orgulhosamente suas formas arredondadas.

Apesar de estar longe de usar manequins tamanho G, a brasileira entrou para esse time de peso e conta, a seguir, como adoeceu e se curou da doença da magreza extrema que continua a ser padrão no planeta fashion.

MANEQUIM 42

“EU não me peso mais. Imagino estar com 73 kg. Parei de me pesar há dois anos, desde que me curei. Hoje em dia, só me peso quando vou ao médico. Eu amo a minha nova agência, a Jag Model.

Eles mudaram a minha vida. A filosofia deles é ser inclusiva. Não pressionam as meninas a serem de nenhum tipo físico específico.

É um novo recomeço da minha carreira. Estou abrindo mercado entre as modelos ‘plus size’.

COMEÇO DIFÍCIL

Fui descoberta na faculdade, quando já tinha esquecido dessa coisa de modelo. Fui a um cast e ouvi pela primeira vez: ‘Se não emagrecer, você não consegue nada’.

Mesmo assim fui a escolhida para um comercial de remédio contra cólica. Ganhei um dinheirinho e pensei que aquilo poderia dar certo.

Comecei a fazer uma dieta. O principal parâmetro era perder dez centímetros de quadril. Eu estava com 107 cm. Tinha de perder 15 kg para chegar ao padrão.

Eu era saudável, comia bem. Sempre quis ser mais magra, mas não era algo que me atormentava.

CARREIRA X COMIDA

Conseguiu emagrecer e me mantive magra por sete anos. Cresci na carreira, viajava para fora e a ganhava dinheiro.

Era louco, quanto mais eu crescia profissionalmente, mais eu me dava conta de que vivia em cima de um corpo que não era o meu.

Não tinha liberdade de ser quem eu sou. Não podia saciar minha fome. Nunca. Olhando pra trás, não sei como consegui.

Uma das coisas mais difíceis era o fato de viajar para vários países, com comidas e culturas diferentes, e não experimentar nada.

Eu tinha medo da comida. Vivia com medo de comer demais, de perder o controle e voltar aos 107 cm de quadril e perder tudo que tinha conquistado.

PRESSÃO VIRA DOENÇA

Percebi que estava mal quando só pensava no que comia. Ia malhar para perder o que tinha ingerido. Não conseguia mais ler direito, ver um filme. Não tinha concentração para nada.

Minha vida se resumia a controlar minha fome para continuar trabalhando e ganhando dinheiro. Não me sentia feliz de jeito de nenhum.

Fiquei muito magra. Vejo minhas fotos antigas e fico assustada. Fui anoréxica, uma coisa sobre a qual não se fala muito para não ser estigmatizada.

VAMOS FALAR DE ANOREXIA

É importante falar de anorexia. A experiência de ter uma doença dessa é muito diferente do que se imagina.

É uma doença mental e que foge do controle. Racionalmente, eu queria ser saudável, mas não conseguia. Tinha pensamentos compulsivos sobre não comer. Eu me media dez vezes por dia. Comia meio brigadeiro e achava que ia ganhar um quilo.

Não cheguei ao estágio de vomitar depois de comer. Mas uma coisa que acendeu o sinal vermelho e me fez perceber que eu estava mal era ir a um restaurante e correr para o banheiro para me medir depois de comer.

PEDINDO AJUDA

Foi quando eu pedi ajuda. Primeiro, eu falei com meu namorado, que hoje é meu marido. Procurei também ajuda médica.

Minha terapeuta americana é especializada nesse tipo de transtorno. Comecei a fazer terapia quando tinha 24 anos. Levei um ano e meio para ficar bem. Fui parando de pensar em comida daquela forma de antes e passei a levar uma vida normal.

O tamanho do meu corpo era uma coisa secundária, passei a me preocupar mais com outros aspectos da vida, com a minha saúde. Não me preocupava mais em ter o corpo que a indústria dizia ser o correto.

DEPOIS DA CURA

Eu comecei a pesquisar e achar outras meninas que eram modelo e tinham medidas fora do padrão de magreza exigido. E passei a admirar, a achar lindo corpos diferentes.

Foi quando percebi que o padrão de beleza dentro da minha cabeça mudou. Comecei a aceitar meu tipo. Foi libertador. Passei a ter força para não me sentir afetada pelas críticas e cobranças da indústria.

Eu engordei e me senti mais bonita, mais até de quando eu estava modelando muito. Troquei de agência. Na antiga, eles foram legais, mas os trabalhos cessaram. Encerramos o contrato de comum acordo. É este o meu corpo agora, não há o que fazer.

Ao mesmo tempo que tentava me curar do meu transtorno alimentar, era tudo duas vezes mais difícil justamente porque os trabalhos sumiram.

NOVA CARREIRA

Estava segura de que não ia mais fazer dieta para fazer dinheiro. Eu ganhava muito bem antes. Alguns trabalhos me rendiam até 25 mil dólares.

Graças a Deus, guardei dinheiro para me manter por um tempo. Eu me dei dois anos para para chegar a um peso saudável e ver o que eu podia fazer profissionalmente.

No primeiro ano, ainda tinha recaídas, pensava em largar tudo e voltar a fazer dinheiro e viajar como antes.

Fiquei parada por um tempo, até que fui direto para o mercado ‘plus size’. Foi um recomeço, devagarinho. Voltei a fazer casts [seleções para campanhas e desfiles] em um mercado 100% novo para mim. Era a mesma rotina de antes, só que agora eu posso ser eu mesma.

Podia comer sem medo de estar gorda. Antes, eu me comparava muito com outras modelos.

NO MEIO DO CAMINHO

Estou numa categoria conhecida como ‘between’, o que é difícil. Mas abrir espaço nesse mercado [intermediário] é gratificante.

A última edição de primavera da Semana de Moda de Nova York, por exemplo, foi muito mais diversa. Várias marcas usaram meninas da minha agência. Uma delas foi a Cromat, que levou para a passarela modelos de todos os tipos e tamanhas.

Até chorei no final do desfile. É mudança de cultura possível e foi lindo.

Mas ainda temos um longo caminho. Fiquei passada com os posts preconceituosos, agressivos. Precisamos combater a ‘gordofobia’ e avançar nesse caminho de inclusão.

Eu tinha vários apelidos na época que vivia emagrecendo e engordando. Diziam: ‘Olha o balão chegando’!

Tinha gente na indústria que falava abertamente: ‘Você é linda só se continuar magra’. Era cobrada se aumentava um centímetro de quadril. Tem que ter muita sanidade mental pra lidar com isso e estar dentro do contexto de uma indústria que, infelizmente, é obcecada por magreza.

O difícil é não ficar obcecada também. Tem meninas naturalmente supermagras. São lindas. Mas para outras a magreza é inatingível.

MILITANTE

Ser um exemplo de novos padrões de beleza é uma missão. Não estou falando que ser magra é errado. O que discuto é diversidade. Enquanto o mundo da moda não olhar para diversidade de verdade, mais meninas vão adoecer como eu adoeci.

Vejo muitas à minha volta. É mais comum do que se imagina. Quando comecei a falar abertamente dos meus problemas, outras modelos me contavam coisas assustadoras. Eu achava que estava mal, mas vi colegas muito pior.

Por isso, aceitei na hora o convite para fazer parte do filme. Conheci a produtora e eles me acompanharam desde o meu primeiro cast nessa nova fase da carreira.

Eu me senti acolhida pela indústria. Minha história vai inspirar outras mulheres e assim tudo o que passei terá tido um propósito.

O filme já estreou nos Estados Unidos e a repercussão foi boa. Falar de magreza extrema é tabu. Está na hora de mudar muita coisa no mundo da moda.

Eu fico ainda mais preocupada, porque esse padrão acaba afetando outras mulheres. Aquelas que me viam na revista e se indagavam: ‘Por que eu não sou magra como ela?’ Percebi que eu era parte do problema.

Foi essa consciência que também me deu forças para parar com as dietas e aceitar minhas medidas saudáveis. Minha vida não podia mais ser parte de algo que faz tão mal para as mulheres.

Se eu não tivesse parado, eu poderia ter cometido suicídio se continuasse naquele caminho que estava. Eu era infeliz, deprimida. Vivendo uma vida de mentira.

Nós mulheres temos que nos amar como somos. Cada uma de nós tem seu próprio tipo de beleza. A gente é muito mais do que o nosso peso ou o número que vestimos. Beleza é muito além disso.”

 

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